OS 25 MAIORES RESPONSÁVEIS PELA CRISE DE 2008


Foto da Revista Time na Internet

A revista Time realizou uma votação para selecionar
os maiores responsáveis pela crise de 2008. O resultado segue abaixo.

Ver “25 People to Blame for the Financial Crisis” em
http://www.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,1877351_1878509,00.html

Traduzido e atualizado por A. C. Mattos

Mais
votado

Nome

Foto
(Revista Time
na Internet)

Cargo

Realizações

1

Phil
Gramm

Presidente da Comissão de Bancos do Senado dos EUA.

Eliminou os controles do sistema financeiro (por pressão — lobby — dos Bancos e investidores).

2

Christopher
Cox

Presidente da SEC — Securities and Exchange Comission (CVM americana).

Ignorou as fraudes do sistema financeiro, como o escândalo Madoff.

3

Angelo
Mozilo

Fundador da Countryside e do IndyMac Bank.

Filho de um açougueiro, oferecia aos investidores títulos hipotecários criativos e exóticos, que quase ninguém entendia. Com a falência, deu prejuízo de bilhões de dólares aos investidores.

4

Joe
Cassano

Um dos fundadores da Cia. de Seguros AIG.

Através de contratos de seguro, garantia o pagamento de títulos hipotecários, muitos deles duvidosos (*). O governo americano aplicou 170 bilhões de dólares para mantê-la funcionando. Logo após, seus executivos decidiram distribuir entre eles um bônus de 165 milhões de dólares, pelos serviços prestados. (NYTimes, 15-mar-2009)

5

Frank
Raines

Presidente da Fannie Mae, empresa de economia mista (com participação do governo).

Realizou contratos de financiamento de imóveis com pessoas que não tinham dinheiro para comprar imóveis. Foi diretor do orçamento na administração Clinton. A Fannie Mae tinha uma irmã, a Freddie Mac, cujo diretor financeiro, David Kellermann, foi encontrado enforcado em sua casa, em abr-2009.

6

Kathleen
Corbet

Presidente da
Standard
& Poors

Ao classificar títulos fraudados e duvidosos com o grau AAA (muito confiáveis) induziu os investidores a comprá-los, levando-os depois à perda do dinheiro investido nesses “títulos tóxicos”. Quem sustenta essas agências são os próprios avaliados. (Valor Ec., 18-mar-2009, p. D4)

7

Ian
McCarthy

Presidente da
construtora
Beazer Homes.

Lançou mais imóveis do que o mercado comportava. Utilizava técnicas agressivas de vendas, pressionando seus corretores. Mentiu aos bancos para que os compradores conseguissem financiamento, mesmo sabendo que não teriam condições de pagá-los. O objetivo era vender os imóveis, transferindo aos bancos o risco de receber as prestações. A empresa está sendo investigada pelo FBI.

8

Bernard
Madoff

Criador
de fundos de
investimentos.

Ex-presidente da Nasdaq (a bolsa de valores de empresas de tecnologia). Utilizava o “esquema Ponzi” (“pirâmide”), onde os títulos que iam vencendo eram pagos com o dinheiro dos novos títulos que estavam entrando (isto é, sendo vendidos). Podendo assim pagar juros bem maiores que o mercado, atraiu muitos investidores do mundo todo. Mas com o inicio da crise e consequente redução da atividade econômica, não mais conseguiu resgatar os títulos que iam vencendo e o fundo quebrou. Foi a maior fraude financeira da história, dando prejuízos acima de 50 bilhões de dólares. Dois grandes investidores se suicidaram, quando viram que sua fortuna havia se transformado em pó (Villehuchet em dez-2008 e Merckle em jan-2009). Grande parte dos lesados era judeu, pois Madoff também era judeu, como informou o jornal Jerusalem Post (18-dez-2008). As empresas estão sendo investigadas pelo FBI. Em março de 2009, Madoff foi condenado a 150 anos de prisão. Seu esquema havia funcionado por 30 anos. (Business Week, 29-jun-2009) (Obs.: a Previdência Social no Brasil também segue o “Esquema Ponzi”, ver “A Previdência Social Brasileira e o ‘Esquema Ponzi’ ”, Valor Econ., 29-dez-2008).

9

Dick
Fuld

Dirigente do
banco de
investimento
Lehman
Brothers.

Conhecido como o “gorila de Wall Street”, negociava títulos duvidosos como se fossem confiáveis, levando-a à falência quando as prestações da casa própria deixaram de ser pagas, o que tornou esses títulos sem valor. Ao sair da empresa, embolsou 500 milhões de dólares a titulo de bônus e compensações. Mas já havia ganho 300 milhões em oito anos (BBC, 06-out-2008).

10

Marion &
Herb
Sandler

Proprietários do
Sandler’s World
Savings Bank

Através de propaganda enganosa, conseguiram fazer com que compradores da casa própria refinanciassem seus débitos, baixando o valor das prestações (a “opção ARM” — Adjustable Rate Mortgage). Ao vender a empresa para a Wachovia Corporation em 2006, embolsaram mais de 2 bilhões de dólares. Mas as perdas provocadas pelos clientes da Sandler’s levaram a Wachovia à falência, depois vendida para a Wells Fargo em dezembro de 2008.

11

Stan
O'Neal

Presidente da
Merrill Lynch

Gastou 41 bilhões de dólares na compra de títulos duvidosos, que com a crise acabaram não valendo nada. A venda da Merrill foi negociada com o Bank of America, que escondeu os prejuízos da Merrill para que os acionistas do Banco não bloqueassem a compra (Valor Ec. 23-abr-2009).

12

John
Devaney

Administrador
de fundos de
investimento
“hedge”

Utilizava títulos duvidosos nas operações de investimento. Em 2007, comentando as hipotecas do tipo “opção ARM”, disse à revista “Money”: “O consumidor tem que ser um idiota para tomar esses empréstimos, mas têm sido um de nossos melhores investimentos.”

13

Sandy
Weill

Presidente do
Citigroup

Transformou o Citibank em um “supermercado financeiro” emprestando dinheiro indiscriminadamente. É o maior problema bancário para o governo americano, que já injetou 45 bilhões de dólares para mantê-lo funcionando. Em 2008, o Banco teve prejuizo acima de US$ 45 bilhões, como também o Well Fargo. Mas ainda estão entre os dez maiores Bancos em capital próprio. (O&N e The Banker, 25-jun-2009)

14

Jimmy
Cayne

Presidente do banco de investimentos Bear Steams’

Administrando fundos hedge baseados em títulos hipotecários duvidosos, perdeu 40 bilhões de dólares. Foi vendida para o JPMorgam por um valor inferior ao prédio sede da empresa. Cayne foi campeão de bridge e tinha mais de US$ 1 bilhão em ações.

15

George W.
Bush

Presidente
dos EUA

Adepto do liberalismo econômico (“Liberdade para agir”), deixou o sistema financeiro sem controle, facilitando as fraudes e as operações duvidosas. Embora tenha tentado algum controle no escândalo do grupo Eron, da Fannie Mae e da Freddie Mac, acabou por desistir diante da pressão dos políticos republicanos.

16

Consumidores
americanos

O povo em geral.

Gastando além de suas posses, acabaram por não conseguir pagar suas dividas, contribuindo para o crescimento da crise. Em 2007 eles haviam se endividado em 130% de suas rendas na compra da casa própria, enquanto que em 1982 o endividamento era de 60%.

17

Alan
Greenspan

Presidente do Banco Central dos EUA (FED)

Campeão do liberalismo econômico, sempre foi contra qualquer tipo de controle no sistema financeiro. Em 2001 resolveu baixar bastante as taxas de juros, incentivando o consumo desenfreado. Essas têm sido consideradas as duas principais causas da crise de 2008. Em uma audiência no congresso americano, em outubro de 2008, disse ter se enganado ao achar que o sistema financeiro poderia se controlar a si mesmo. [De fato, um antigo principio administrativo ensina que “quem opera não pode controlar.”]

18

Hank
Paulson

Secretário do Tesouro Americano.

Antigo presidente da Goldman Sachs, é responsabilizado por ter tentado controlar a crise tarde demais, por ter deixado o Lehman Brothers falir e por ter forçado o congresso a aprovar um pacote de ajuda considerado um atrapalhado desperdício. O FMI estima em US$ 4 trilhões o montante nominal dos derivativos ligados a hipotecas nas carteiras dos bancos. (“G-20 e o Saqueio Global” por Adriano Benayon, A Nova Democracia, mai-2009)

19

David
Lereah

Economista-chefe da Associação Nacional de Corretores de Imóveis

Incentivou a compra de imóveis dizendo que eles sempre se valorizam, sendo portanto um investimento infalível (o valor dos imóveis caiu 50% após a crise). Autor do livro “Você não está perdendo o boom imobiliário?”, de 2007.

20

Lew
Ranieri

Criador da securitização.

O pai dos títulos baseados em hipotecas, isto é, títulos financeiros que pagam juros obtidos das prestações da casa própria, e que têm como garantia o valor de mercado dessa casa. Essa transformação de um contrato de financiamento de um imóvel em um titulo financeiro negociável se chama “securitização da dívida imobiliária”. Naturalmente, se o financiado não pagar suas prestações e/ou o preço do imóvel baixar, esses títulos perdem valor, como ocorreu em 2008. Nessa situação, quem comprou tais títulos perde o dinheiro investido. Por isso, bancos de investimentos faliram e investidores perderam fortunas.

 

Sobre os Derivativos, o mega-investidor Warren Buffet chamou-os de “armas financeiras de destruição em massa”.

21

David
Oddsson

Primeiro ministro da Islândia e presidente do banco central.

Implantou na ilha uma economia de livre mercado, privatizando os três maiores bancos, liberando o câmbio e divulgando o inicio da idade de ouro para os empreendimentos. A experiência deu errado: os três bancos faliram, bem como o pais como um todo, que agora depende de ajuda externa. Considerado um dos 10 maiores colapsos financeiros dos últimos tempos, o pais foi uma das vitimas da crise de 2008.

22

Fred
Goodwin

Presidente do Banco Real da Escócia.

Caracterizou-se por realizar inúmeras aquisições de empresas. Uma das últimas, em 2007, acabou com as reservas do banco, ao adquirir por US$ 100 bilhões o concorrente holandês ABN Amro. Com a crise, o governo inglês precisou injetar 30 bilhões de dólares no banco, nacionalizando-o. Suas perdas foram as maiores de toda a história econômica inglesa. Goodwin retirou-se do banco com uma aposentadoria vitalícia de um milhão de dólares por ano. Em 2008, o Banco teve um prejuizo de US$ 59,3 bilhões. Mas continua um dos dez maiores bancos em capital próprio (O&N e The Banker, 25-jun-2009)

23

Bill
Clinton

Presidente
dos EUA.

Na crise de 1929 várias leis foram criadas para controlar o sistema financeiro, evitando assim novos problemas. Porém, com o passar do tempo, o lobby bancário foi aos poucos afrouxando esses controles. Na era Clinton, os controles que restavam foram abolidos, como a Lei Glass-Steagall, da época da Grande Depressão, deixando os executivos financeiros com as mãos livres para agir. Foi a volta do liberalismo econômico.

24

Wen
Jiabao

Oficial do governo chinês.

Investiu cerca de 1,7 trilhões de dólares nos EUA, tornando-se seu maior credor. Essa abundância de dólares serviu para alimentar a crise financeira. Em segundo lugar vem o Japão, com US$ 634 bilhões. Em terceiro, o Brasil, com US$ 133 bilhões. (“G-20 e o Saqueio Global” por Adriano Benayon, A Nova Democracia, mai-2009)

25

Burton
Jablin

Executivo da HGTV

Incentivou, através de programas de TV, a compra indiscriminada de imóveis, ajudando a inflar a bolha especulativa imobiliária. Seus shows “Programado para vender”, “Caçadores de casas”, “Quanto vale minha casa?” e “Renda da propriedade” tiveram audiências cativas. Seus programas atingiam 97 milhões de lares.

(*) “Títulos duvidosos” (ou “de alto risco” ou “sub-prime” ou “tóxicos”) são títulos mobiliários financeiros baseados (lastreados) em imóveis vendidos através de financiamento para pessoas que não têm dinheiro para comprá-los.

 

 

As 10 maiores vítimas da crise de 2008

Ver “Top 10 Financial Collapses” em
http://www.time.com/time/specials/2008/top10/article/0,30583,1855948_1864602,00.html

 

Foto da Revista Time
na Internet

Vitimas

Setor

Causa

Efeito

1

Lehman
Brothers

Banco de Investimento

Comprou títulos “tóxicos” (*)

Falência

2

AIG

Cia. de Seguros

Efetuou seguro de títulos “tóxicos”.

Falência e estatização

3

GM,
Chrysler
e Ford

Montadoras de veículos

Com a crise, as vendas de seus veículos caíram até 50%. Investiu em Credit Default Swaps. (**)

Insolvência e estatização (GM)

4

Citigroup

Banco

Investiu em títulos “tóxicos”. Transformou o banco em “supermercado financeiro”.

Insolvência.

 

Em julho de 2009 o governo dos EUA se tornou o maior acionista, com 34% das ações ordinárias e US$ 20 bi em ações preferenciais. (Reuters, 30-jul-2009)

5

Freddie
Mac,
Fannie
Mae

Financeiras imobiliárias de economia mista (com a participação do governo).

Financiaram a compra de imóveis para pessoas sem dinheiro para comprar imóveis. Várias operações eram fraudadas.

Falência e estatização

6

Securities
(Títulos
financeiros)

Financeiro

Títulos “tóxicos”.

Perda de credibilidade

7

Moody’s,
Standard
& Poors,
Fitch

Agências de Avaliação de Risco

Classificaram títulos “tóxicos” como sendo titulos de baixo risco (grau AAA, ou de investimento).

Perda da credibilidade

8

Fundos
hedge

Financeiro

Fundos de investimento que compraram títulos “tóxicos”.

Perda da credibilidade

9

Greenspan

Ex-presidente do FED (Banco Central dos EUA).

Minimizou a fiscalização do sistema financeiro, viabilizando a criação de títulos “tóxicos” e de outras fraudes.

Perda da credibilidade

10

Islândia

Pais europeu

Bancos recentemente privatizados investiram em títulos “tóxicos” e faliram.

Insolvência, socorro do FMI

(*) Um titulo “tóxico” é um titulo baseado em (lastreado em ou garantido por) um contrato de financiamento de imóvel realizado com pessoa sem dinheiro para comprar um imóvel. Muitas vezes, o cadastro utilizado para realizar esse contrato era fraudado ou falsificado.

 

(**) Sobre o Credit Default Swaps - CDS (Troca de Calotes de Crédito), o conhecido investidor George Soros disse: “Comprar contratos CDS é como comprar seguro de vida para outra pessoa e ter uma licença para matá-la. É tarefa dos reguladores assegurar que ninguém jamais receba tal licença.” (Valor Econômico, 18-jun-2009, p. A13). Ele estava explicando a quebra das empresas AIG, Abitibi-Bowater e General Motors.

 

 

 

Bancos reabrem cassino global

Menos de um ano após a turbulência global,
os bancos voltam a fazer operações de risco com clientes subprime

Gustavo Chacra, Nova York, Estadão, 16-ago-2009

Depois de meses de incerteza sobre o futuro do mercado financeiro americano, o cenário pode parecer de calmaria para os investidores, com o "Grande Pânico" se tornando história em Wall Street. Os índices Dow Jones e S&P 500, da Bolsa de Nova York, estão subindo desde março, quando estiveram nos seus níveis mais baixos em quase uma década. Na economia, o governo americano publicou, em agosto, sucessivos números que demonstram, segundo o Fed (Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos), o início do fim da recessão.

Esse quadro, de acordo com alguns analistas, não passa de ilusão. Os bancos agem como se nada houvesse ocorrido e o "cassino financeiro" está de volta, escrevem críticos do governo em sites especializados como o zerohedge.com e publicações como o Wall Street Journal. Investimentos arriscados produzem lucros bilionários para alguns bancos. Mesmo as empresas de financiamento de imóveis, tidas como epicentro da crise, voltam a emprestar para clientes subprime (com elevado risco).

A retomada do risco ocorre menos de um ano após o Lehman Brothers deixar de existir e o Merrill Lynch passar para as mãos do Bank of America, em uma época em que o JP Morgan e o Goldman Sachs temiam ser os próximos da lista. Na época, hedge funds (fundos de investimento com liberdade para atuar em vários mercados) fechavam as portas, operadores de mercado acostumados com bônus de cifras milionárias viam suas carreiras - e suas fortunas - se desintegrarem em poucos dias. O que ficou conhecido como o "Grande Pânico" poderia se converter em uma nova "Grande Depressão", como nos anos 1930, ou ser um pouco menos grave, como em 1907, quando o mercado foi salvo pelo banqueiro JP Morgan.

Ben Bernanke, presidente do Fed, não queria cometer os mesmos erros dos dirigentes da instituição nos anos 1930 e sabia que o banco central e o governo precisavam intervir no mercado para evitar uma quebradeira generalizada, segundo David Wessel, editor de economia do Wall Street Journal e autor do livro In Fed We Trust (Nós acreditamos no Fed). Esse seria o primeiro passo. Atuando em sincronia, o Fed e a Secretaria do Tesouro, depois de fracassarem na tentativa de salvação do Lehman, incorporaram ao governo o gigante dos seguros AIG e diversas companhias de financiamento de imóveis como Freddie Mac e a Fannie Mae. Também negociou a venda do Merrill Lynch para o Bank of America. A Bear Sterns já havia sumido do mapa antes mesmo do ápice da crise.

A segunda parte do plano de salvamento consistiria na regulamentação de todo o mercado financeiro para evitar que negociações com derivativos não colocassem todo o sistema em risco se os clientes subprime não conseguissem pagar as suas dívidas. Algumas medidas foram tomadas durante o auge da crise, como a transformação de bancos de investimentos em bancos comerciais comuns, o que limitava as suas ações. Mas a maior parte das reformas do mercado financeiro demorou para ser implementada. Apenas na semana passada, finalmente, a administração de Barack Obama, com o apoio do Fed, enviou para o Congresso um plano para reformar o mercado de alguns tipos de derivativos que provocaram a crise.

Segundo um analista de Wall Street disse ao Estado, talvez seja um pouco tarde e a festa já recomeçou há algum tempo. O Merrill Lynch anunciou na quinta-feira que levará adiante uma agressiva política de remuneração para contratar pessoal. O JP Morgan aumentou o salário de seus funcionários. Até esse ponto, tudo bem, afirmam os céticos em relação ao cenário atual. O problema aumenta quando se fala na Goldman Sachs. O banco de investimentos anunciou um lucro recorde de US$ 13,8 bilhões no segundo trimestre deste ano. Ao longo de 46 dias úteis (71% do total) entre abril e junho, o Goldman Sachs conseguiu lucrar mais do que US$ 100 milhões por dia. A marca anterior era de 34 dias. O número aumenta para 89% quando o patamar é reduzido para US$ 50 milhões. Resultado que ocorre meses depois de o banco ser socorrido pelo Tesouro americano com uma ajuda de cerca de US$ 10 bilhões - já devolvidos.

"Bancos que foram salvos da implosão poucos meses atrás pelos contribuintes apresentam ganhos recordes", dizem os analistas Naufal Sanaullah, Qasin Khan e Tyler De Bôer. Estudo deles demonstra que os bancos mantêm o mesmo tipo de operações anteriores à crise e as intensificaram ainda mais nas últimas semanas. Assim como na "era Alan Greenspan" (alusão ao célebre presidente do Fed que antecedeu Bernanke) havia a noção de que os Estados Unidos se expandiriam indefinidamente, agora passaram a ver a recessão como uma coisa do passado e que, a partir daqui, a tendência é crescer. Em um acréscimo de risco em relação ao período pré-crise, bancos e hedge funds utilizam cada vez mais o High Frequency Trading, no qual computadores são usados em operações de ações em alta velocidade que dão vantagem a alguns investidores em relação a outros.

O professor da Universidade de Princeton e prêmio Nobel de Economia em 2008, Paul Krugman, advertiu em recente coluna no New York Times que os lucros do Goldman Sachs deixam claro três coisas. "Primeiro, o Goldman é muito bom no que faz. Infelizmente, isso é ruim para os Estados Unidos. Segundo, demonstra que os maus hábitos de Wall Street não desapareceram. Terceiro, indica que, ao resgatar o sistema financeiro sem reformá-lo, Washington não protegeu os americanos de uma nova crise - na verdade, tornou outra crise mais provável". O Goldman Sachs nega que venha se arriscando e ressalta a política de transparência em relação aos clientes adotada no início deste ano. Os bons resultados, diz o banco, se deve à maior competência.

O problema, segundo Sanaullah, é que alguns bancos já realizam investimentos arriscados baseados na presunção de que a economia se estabilizou. Ele e muitos economistas americanos afirmam que os números divulgados nas últimas semanas, celebrados pela administração Obama, indicam na realidade uma situação ainda grave e com o risco da volta da recessão. O índice de desemprego (9,4%) parou de subir porque menos pessoas procuraram emprego, e não por aumento nas contratações; os estoques diminuíram porque não foram repostos; e a economia se reduziu em "apenas" 1% por causa dos gastos do governo por meio do programa de estímulo da economia, e não devido ao maior consumo ou investimento da iniciativa privada, tradicionais motores do crescimento do PIB nos Estados Unidos.

Além disso, grande parte dos americanos continua endividada e suas casas podem ser hipotecadas nos próximos meses. Julho foi o mês que registrou o recorde em hipotecas executadas desde o início da medição, em 2005.

Para complicar, conforme escreveram o Wall Street Journal e a revista The Economist, apesar de as financiadoras de imóveis Freddie Mac e Fannie Mae estarem sob controle, a Ginnie Mae, outra empresa do mesmo ramo e também sustentada pelos contribuintes, voltou a dar garantias indiscriminadamente para clientes subprime.

A inadimplência não para de crescer e atinge 7%. O mercado que foi deixado de lado pelas duas empresas maiores antes da crise, passou para as mãos de Ginnie Mae. A conta, alertam as publicações, ficará com o governo.

"Alguém no Congresso ou na Casa Branca está prestando atenção? Claro que não", escreveu o Wall Street Journal em editorial, no dia 11.

 

De tanto ver triunfar as nulidades,
De tanto ver prosperar a desonra,
De tanto ver crescer a injustiça,
De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,
O homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
A ter vergonha de ser honesto.

 

Rui Barbosa, político da Bahia (1849-1923)