122.gif (12618 bytes) CAPÍTULO 10

ENFRENTANDO UMA ESTATÍSTICA DE HOMEM PARA HOMEM

Até aqui, tenho me dirigido a você como se você fosse um pirata ávido para dar trabalho à sua espada. Neste capítulo final não usarei aquele artifício literário. Mostrarei o sério propósito que julgo estar sob a superfície deste livro: Explicar como olhar para descobrir uma estatística falsificada e combatê-la; e, não menos importante, como reconhecer dados utilizáveis e sérios naquela selva de fraudes às quais os capítulos anteriores foram amplamente devotados.

Nem toda a informação estatística, que pode chegar até os seus olhos, pode ser testada com a segurança das análises químicas ou dos ensaios de laboratório. Mas você pode pesquisar o assunto com cinco perguntas simples, e ao encontrar as respostas evitará aprender um monte de coisas que não existem.

1. QUEM DIZ ISTO ?

A primeira coisa a procurar é o preconceito - o laboratário com algo a provar a favor de uma teoria, de uma reputação, ou de um pagamento; o jornal cujo objetivo é uma notícia sensacional; operários ou patrões com níveis salariais em mira.

Procure os preconceitos e as tendenciosidades conscientes. O método pode ser uma falsa declaração ambígua, que serve da mesma maneira e não pode ser condenada. Pode ainda ser a escolha de dados favoráveis e a supressão dos desfavoráveis. As unidades de medida podem estar trocadas, como a prática de usar-se determinado ano para uma comparaçao e passar-se para outro ano mais favorável, para outra comparação . Uma medida imprópria pode ser usada: uma média aritmética, onde a mediana seria informativa (talvez demasiado informativa), com o truque acobertado discretamente.

Procure vivamente pelo preconceito inconsciente. É frequentemente mais perigoso. Nas tabelas e previsões de muitos estatísticos e economistas, em 1928, produziram-se notáveis efeitos, como a crise de 1929. As brechas na estrutura econômica foram alegremente desprezadas e toda sorte de evidência alegada e estatisticamente provada para mostrar que havíamos acabado de entrar na corrente de prosperidade.

Pode ser preciso um segundo exame mais atento para descobrir-se "quem-diz-isto". O "quem" pode estar oculto pelo que Stephen Potter, o homem do Lifemanship, provavelmente chamaria o "nome OK". ou o "nome abalizado". Qualquer coisa cheirando a classe médica é um nome abalizado. Laboratórios científicos têm nomes abalizados. Assim também faculdades e universidades, mais especialmente as ligadas ao trabalho técnico. O escritor que, alguns capítulos atrás, provou que a educação superior põe em perigo a chance de casamento de uma garota, fez muito bom uso do nome abalizado da Universidade de Cornell. Note, por favor, que ainda que os dados viessem de CornelI, as conclusões eram inteiramente do próprio autor. Mas o nome abalizado ajuda-o a dar a impressão de que "A Universidade de Cornell diz..."

Quando um nome abalizado é citado, assegure-se de que a autoridade está suportando a informação, e não se encontra meramente por perto.

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Você pode ter lido uma orgulhosa declaração do Journal of Commerce de Chicago. Aquele periódico havia feito uma pesquisa. Das 169 empresas indagadas sobre extorsivos preços e estocagem ilícita, dois terços declararam que estavam ficando com o prejuizo dos aumentos de preço produzidos pela guerra na Coréia. "A pesquisa mostra", disse o Journal (muito cuidado quando encontrar estas palavras!), "Que as empresas têm feito exatamente o contrário do que os inimigos do sistema comercial da América as acusam". Esse é um momento óbvio para indagar, "Quem diz isso?" já que o Journal of Commerce poderia ser considerado como parte interessada. É também uma esplêndida oportunidade para fazer nossa segunda pergunta teste:

2. COMO É QUE ELE SABE ?

Acontece que o Journal havia começado enviando seus questionários a 1.200 grandes companhias, e somente quatorze por cento respondeu. Oitenta e seis por cento não quis dizer em público se estavam estocando mercadoria ou especulando com o preço.

O jornal havia colocado uma boa aparência notável nos resultados, mas permanece o fato de que havia pouco de que alguém pudesse jactar-se. Este pouco poderia ser dito assim, modestamente: "De 1.200 companhias pesquisadas, nove por cento declararam que não haviam aumentado os preços, cinco por cento haviam e oitenta e seis por cento não responderam. Aquelas que responderam constituíram uma amostra cuja tendenciosidade deveria ser suspeitada."

Cuidado com a evidência de uma amostra tendenciosa, aquela que tenha sido impropriamente selecionada ou, como esta, que se tenha auto-selecionado. Faça a pergunta que já tratamos num capítulo anterior: "A amostra é suficientemente ampla para permitir qualquer conclusão fidedigna?"

Do mesmo modo, para uma correlação declarada: "É a amostra bastante grande para significar algo?" "Há casos suficientes para produzir somatório de algum significado?" Você não pode, como leitor ocasional, aplicar testes de significância ou chegar a conclusões exatas quanto à adequabilidade da amostra. Todavia, na maioria das declarações que você encontra, será possível, de uma olhada - talvez uma olhada bem longa e cuidadosa - dizer que não houve casos suficientes para convencer razoavelmente alguém sobre alguma coisa.

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3. O QUE ESTÁ FALTANDO ?

Nem sempre ser-lhe-á dito o total de casos. A ausência de tal número, principalmente quando a fonte é parte interessada, é suficiente para suscitar suspeita sobre o assunto todo. Similarmente, uma dada correlação sem uma medida da precisão (erro provável, erro padrão), não deve ser considerada muito seriamente.

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Cuidado com uma média, do tipo não específicado, em qualquer assunto onde seria de se esperar que média e mediana diferissem substancialmente. Muitos números perdem significado por falta de uma comparação. Um artigo na revista Look cita, em relação ao mongolismo, que "um estudo mostra que, em 2.800 casos, mais da metade das mães tinham 35 anos ou mais". Extrair algum significado disso depende de saber algo sobre a idade que em geral as mulheres costumam ter bebês. Poucos de nós sabemos coisas esse tipo, ou a elas estamos atentos.

Aqui está um artigo da revista New Yoker, "Cartas de Londres" de 31 de janeiro de 1953:

"O Ministério da Saúde, ao publicar recentemente dados mostrando que, em uma semana de grande nevoeiro, a taxa de mortes na Grande Londres saltou para dois mil e oitocentos, causou choque no público, que costuma considerar o desagradável clima britânico mais como um incômodo do que como um assassino... As extraordinárias propriedades letais deste visitante do inverno..."

Mas quão letal foi o visitante? Era excepcional a taxa de morte ter atingido aquela altura em uma semana? Tudo isso varia. E nas semanas subseqüentes? A taxa de morte desceu abaixo da média, indicando que se o nevoeiro matou alguém, eram aqueles que em sua maioria morreriam logo, de qualquer maneira? O número parece impressionante, mas a ausência de outros números rouba-lhe a maior parte do significado.

Algumas vezes percentagens são citadas e os números faltam, e isto pode também ser decepcionante. Há algum tempo, quando a Universidade de John Hopkins acabava de admitir mulheres, alguém não muito favorável à educação bissexuada anunciou algo sensacional: trinta e três e um terço por cento das alunas da Hopkins casaram-se com membros do corpo docente. O número natural clareou o quadro. Havia na época três mulheres na faculdade e uma delas casou-se com um professor.

Há alguns anos a Câmara de Comércio de Boston escolheu sua Galeria de Americanas Notáveis. Das dezesseis dentre elas, que também figuravam em Who's Who, anunciou-se que possuiam "sessenta diplomas acadêmicos e dezoito filhos". Isso soa como um quadro informativo do grupo, até que você descobre que entre as senhoras estava a Reitora Virginia Gildersleeve e a Sra. Lillian M. Gilbreth. Essas duas juntas possuiam um terço dos diplomas. E a Sra. Gilbreth, é claro, supria dois terços dos filhos.

Certa empresa anunciou que suas ações estavam em mãos de 3.003 pessoas, que possuíam em média 660 ações cada. Isso era verdade. Era também verdade que do total de dois milhões de ações da empresa três homens possuiam três quartos e três mil pessoas possuiam a outra quarta parte, entre eles.

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Se for-lhe dado um índice, você pode perguntar o que está faltando. Pode ser a base, uma base escolhida para dar uma imagem adulterada. Uma organização nacional de operários mostrou certa vez que os índices de lucro e produção haviam aumentado muito mais rapidamente depois do periodo de depressão do que o índice dos salários Como argumento do aumento salarial, essa demonstração perdeu sua força quando alguém descobriu os números ausentes. Poder-se-ia ver que os lucros tiveram de crescer mais rapidamente, em percentagem, do que os salários, simplesmente porque os lucros haviam atingido um ponto mais baixo, dando uma base menor.

Algumas vezes, o que esta faltando é o fator que causou a ocorrência de uma mudança. A omissão deixa a implicação de que outro fator mais desejável, é o responsável. Números publicados em um ano tentavam mostrar que o comércio estava vendendo bastante, destacando que as vendas de abril eram maiores que as do ano anterior. O que faltava era o fato de a Páscoa haver caido em março, no ano anterior, e em abril no outro ano.

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Uma declaração do aumento de mortes por câncer, no último quarto de século, é desorientadora, a menos que você saiba o quanto disto é produto de fatores estranhos tais como: O câncer é agora diagnosticado onde antes era formalmente designado como "causa desconhecida"; autópsias são mais frequentes, resultando diagnósticos mais precisos; as anotações e registros de estatísticas médicas são mais completos; o povo agora atinge mais frequentemente as idades mais suscetíveis. E se você prefere observar o total de mortes, em vez da taxa de mortalidade, não negligencie o fato de que agora há mais pessoas do que costumava haver.

4. ALGUÉM MUDOU DE ASSUNTO ?

Ao analisar uma estatística, procure em algum lugar o interruptor entre o número e a conclusão. Muita coisa é frequentemente relatada como se fosse outra.

Como jà foi mencionado, "mais casos relatados" de uma doença nem sempre é o mesmo que "mais casos" da doença. Uma previsão de votos para um candidato nem sempre funciona na hora da eleição.

Uma preferência declarada por certo tipo de coluna, numa revista, não é prova final de que os leitores iriam lê-la, caso publicada. Casos de encefalite anunciados no Vale Central da Califórnia, em 1952, foram o triplo do registrado no pior ano anterior. Muitos moradores alarmados mandaram seus filhos embora. Mas quando tudo se esclareceu, não tinha havido grande aumento no número de mortes. O que ocorreu foi que o pessoal da saúde pública estadual e federal veio em grande número para combater um problema já antigo; como resultado de seu esforço, muitos casos brandos foram identificados, os quais em outros anos teriam sidos relegados ou mesmo não constatados.

Isto lembra a maneira como Lincoln Steffens e Jacob A. Riis, repórteres de Nova York, criaram certa vez uma onda de crimes. A ocorrência de crimes no jornal atingiu tais proporções, ambas em número, espaço e manchetes, que o público exigiu providências. Theodore Roosevelt, como presidente da Junta de Reforma Policial, ficou seriamente embaraçado. Ele acabou com a onda de crimes pedindo simplesmente a Steffens e Riis que parassem, Tudo acontecera porque os repórteres, liderados por aqueles dois, estavam competindo para ver quem conseguia descobrir o maior número de assaltos e delitos. Os registros policiais absolutamente não acusavam nenhum aumento.

"O homem britânico maior de 5 anos banha-se em média 1,7 vezes por semana no inverno e 2,1 vezes no verão", cita uma noticia de jornal. "A mulher britânica toma em média 1,5 banhos por semana no inverno e 2,0 no verão!" A fonte é de uma pesquisa sobre água quente, do Ministério de Obras, em 6.000 lares britânicos representativos. "A amostra foi representativa," diz ele, "e parece razoavelmente adequada em tamanho para justificar a conclusão do Chronicle de San Francisco, exposta numa divertida manchete: "NA INGLATERRA, ELE TOMA MAIS BANHO QUE ELA".

Os números seriam mais informativos se houvesse alguma indicação, se são médias aritméticas ou medianas. Todavia, a maior fraqueza é que o assunto foi trocado. O que o Ministério realmente descobriu foi a frequência que aquelas pessoas declararam sobre se tomavam banho, e não quão frequentemente se banhavam de fato. Quando se trata de um assunto tão intimo como este, envolvendo a "Tradição Britânica" do asseio corporal, "dizer" e "fazer" podem não ser absolutamente o mesmo. Os britânicos podem, ou não, banhar-se com mais frequência que as mulheres; mas o que se pode seguramente concluir é que eles dizem que o fazem, com mais frequencia do que as mulheres o dizem. Aqui estão mais algumas variedades de mudança de assunto, para se ficar atento.

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Um "Movimento de Retorno à Vida Campestre" foi percebido quando um recenseamento mostrou haver meio milhão de fazendas a mais em 1935 do que em 1930. Mas as duas contagens não estavam falando sobre a mesma coisa. A definição de "fazenda" usada pelo Bureau do Censo havia sido mudada; incluia pelo menos 300.000 fazendas que não haviam sido assim consideradas sob a definição usada.em 1930.

Coisas estranhas aparecem quando os números são baseados naquilo que o povo diz - mesmo quando parece tratar-se de fatos objetivos. Resultados do censo têm mostrado, por exemplo, mais pessoas com 35 anos de idade do que com 34 ou 36. O falso quadro advém de um membro da família, ao declarar a idade dos outros, não estar bem seguro das idades exatas, tendendo a arredondá-las para um múltiplo de S. Um modo de contornar isso é indagar as datas de nascimento.

A "população" de certa grande area da China era de 28 milhões. Cinco anos depois era de 105 milhões. Muito pouco desse aumento foi real; a grande diferença poderia ser explicada levando-se em conta os propósitos das duas contagens, e o modo como o povo se sentia, ao ser recenseado em cada um deles. O primeiro recenseamento foi para fins fiscais e militares, o segundo para alivio da fome.

Algo semelhante ocorreu nos Estados Unidos. O censo de 1.950 encontrou mais gente entre as idades de 65 a 70 do que havia no grupo de 55 a 60, 10 anos atrás. A diferença não poderia ser devida à imigração. A maior parte disso poderia ser um produto em grande escala de falsificação de idade, por pessoas ansiosas de receber o seguro social. Também é possível que alguns do grupo de idades mais novas as houvessem declarado por simples vaidade.

Outro tipo de "troca-de-assunto" é o representado pela declaração do senador William Langer de que "poderiamos trazer um prisioneiro de Alcatraz e hospedá-lo mais barato no Waldorf Astória..." O senador referia-se a declarações anteriores de que a manutenção de um prisioneiro em Alcatraz custava oito dolares diários, "o preço de um quarto em um bom hotel de San Francisco". O assunto foi mudado do custo total de manutenção (Alcatraz) para um simples aluguel isolado de quarto.

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A variedade "post hoc" dos disparates pretenciosos é outro processo de mudar de assunto sem dar a perceber. A troca de algo por outra coisa é apresentada como consequência. A revista Eletrical World apresentou certa vez um editorial sobre "O Significado da Eletricidade. para a América". Podíamos observar por ele que, à proporção que "crescia nas fábricas o consumo de energia elétrica," "crescia também a média salarial por hora". Ao mesmo tempo a "média de horas por semana caia". Estes fatos obedecem a tendências que vêm de longe, isoladamente, e não há evidência. de que qualquer deles tenha efeito sobre os outros.

Existem também os "primeiros". Quase todo mundo pode se jactar de ter sido o primeiro em algo, se não for muito exigente na escolha. No fim de 1952 dois jornais de Nova York insistiam cada um no primeiro lugar nos anúncios comerciais. Ambos estavam certos, de certo modo. O World Telegram, explicou que era o primeiro nos anúncios corridos, o tipo que aparece em todas as edições e que era o único tipo de anuncio que publicava. O Journal-American insistia que o total de linhas era o que valia, e que era o primeiro nisto. É o tipo de busca a um superlativo que faz uma informação meteorológica no rádio rotular um dia razoavelmente normal como "o dois de junho mais quente desde 1949."

A troca-de-assunto torna difícil comparar custos quando se conspira com a obtenção de um empréstimo, direto ou na forma velada de compra a prestação. Seis por cento soam como seis por cento - mas podem absolutamente não ser.

Se você toma emprestado $100 de um banco a juros de seis por cento e paga em prestações iguais durante o ano, o preço que você paga pelo empréstimo é cerca de $3. Mas um empréstimo a seis por cento, na base de $6 para cada $100, custar-lhe-á o dobro. Este é o processo usado na maioria dos financiamentos de automóvel. É muito ardiloso.

A verdade é que você não tem os $100 em suas mãos durante o ano todo. No fim de seis meses já pagou a metade. Se lhe cobram $6 pelos $100, ou seis por cento do total, você na verdade paga juros de quase doze por cento.

Pior ainda foi o que ocorreu a alguns descuidados compradores de alimentos congelados em 1952 e 1953. Foi-lhes oferecido um número de seis a doze por cento. Soava como juro mas não era. Era um número sobre o total em dólares e, pior de tudo, o prazo era frequentemente de seis meses e não de um ano. Ora, $12 sobre $100, por dinheiro a amortizar regularmente durante meio-ano, torna-se algo como quarenta e oito por cento de juro real. Não é de admirar que tantos compradores ficassem devendo e tantos planos de venda estourassem.

Algumas vezes o auxílio da semântica é evocado para mudar o assunto. Aqui está um artigo da revista Business Week:

"Os contadores decidiram que "superavit" é uma palavra desagradável. Propuseram eliminá-la dos Balanços das sociedades. O Conselho de Processos Contábeis do Instituto Americano de Contabilidade, diz: Use termos descritivos como "lucro retido" ou "avaliação de valores imobilizados".

Esta é uma noticia de jornal, relatando a receita recorde da Standard Oil, e seu lucro líquido de um milhão de dólares diários.

Possivelmente, os diretores de vez em quando pensem em fracionar as ações, pois pode haver vantagem... se os dividendos por ação não parecerem tão grandes ...

5. ISSO FAZ SENTIDO ?

"Isso faz sentido?" reduzirá frequentemente uma estatistica ao seu valor real, quando toda a conversa fiada estiver baseada numa suposição não provada. Você deve estar familiarizado com a regra de legibilidade de Rudolf Flesch. Ele proclama que é fácil medir-se a legibilidade de um texto, simplesmente medindo-se itens simples e objetivos como o são o comprimento das palavras e das frases. Como todos os artifícios para reduzir o imponderável a um número, e substituir o julgamento pela aritmética forçada, esta é uma idéia forçada. Pelo menos tem forçado muítos dos que contratam escritores, tais como os editores de jornais, ou mesmo os próprios escritores. A suposição na fórmula é que eventos tais como o comprimento das palavras determina a facilidade da leitura. Isso, para ser franco, permanece sem ser provado,

Um tal de Robert A. Dufour colocou a fórmula de Flesch em julgamento, para certa literatura que ele considerava capaz de suportar a prova. Mostrou que a Lenda do Vale Adormecido era pelo menos 0,5 mais pesada de ler do que A República de Platão. A novela de Sinclair Lewis, Cass Timberlane, foi classificada como mais dificil do que um ensaio de Jacques Maritain, O Valor Espiritual da Arte. Essa de Dufour é das boas!...

Muita estatistica é falsa logo de cara. É aceita somente em virtude da mágica dos números, que causa uma suspensão do bom senso. Leonard Engel, em um artigo do Harpe, selecionou alguns exemplos de estatísticas da variedade médica:

Um exemplo é o cálculo de conhecido urologista, de que há oito milhões de casos de câncer da próstata nos Estados Unidos - o que seria suficiente para prover 1,1 próstatas cancerosas para cada homem do grupo de idade suscetível! Outro é a estimativa de um eminente neurologista de que um americano em cada doze sofre de enxaqueca; desde que a enxaqueca seja responsável por um terço dos casos crônicos de dor de cabeça, isto significaria que um quarto dos americanos sofre de dor de cabeça do tipo incapacitante do indivíduo. Ainda outro é o número de 250.000, dado frequentemente como montante de casos de arterioesclerose; os dados mortais indicam que, felizmente, não há mais de trinta a quarenta mil casos desta doença paralisante no país,

Discussões legislativas sobre emendas nas leis de Seguro Social têm sido assombradas por várias formas de declarações que só fazem sentido se forem encaradas superficialmente. É um argumento que segue dessa forma: Desde que a expectativa de vida esteja em torno de 63 anos de idade, é uma vergonha e uma fraude estabelecer-se um plano de seguro social para aposentadoria aos 65, porque virtualmente todos morrerão antes disso.

Você poderia refutar esta, lembrando-se dos velhos que conhece. O erro básico, todavia, é que o número se refere à expectativa de vida do nascituro, e assim cerca da metade dos bebês nascidos podem esperar viver mais. O número, aliás, é das mais recentes bioestatísticas oficiais e está corrigido para o período 1.939-1941. Uma estimativa moderna corrige-o para acima de 65. Talvez isso produza um novo argumento, igualmente tolo, para o fato de que praticamente todos agora vivem até 65 anos.

Os planos de após-guerra, numa grande companhia de utensílios elétricos, abriam fogo, baseados numa decrescente taxa de natalidade, algo que considerava-se verdadeiro já há longo tempo. Os planos pediam ênfase para os utensilios de pequena capacidade, geladeiras de pequeno porte para apartamentos. Então, um dos planejadores teve um ataque de bom senso: Largou os seus gráficos e mapas por um período suficiente para notar que ele, seus companheiros, seus amigos, vizinhos e companheiros de turma, com poucas exceções, tinham três ou quatro filhos, ou planejavam tê-los. Isto abriu a mente para investigações, e a companhia rapidamente mudou a ênfase, com muito sucesso comercial, para modelos de tamanho para grande família.

O número impressionantemente preciso é outro fator que contradiz o bom senso. Um estudo relatado nos jornais de Nova York anunciou que uma senhora que trabalha fora, morando com sua família, necessitava de uma quantia semanal de $40,13 para a manutenção adequada. Qualquer um que, durante a leitura desse jornal, não houvesse paralizado seu processo mental de lógica, entenderia que o custo de manutenção do corpo e da alma não pode ser calculado até os mínimos centavos. Mas lia uma terrível tentação; "$40,13" soa muito mais inteligente do que "cerca de $40".

Você deve olhar com a mesma suspeita para o relato, há alguns anos, da Comissão das Indústrias Americanas de Petróleo, de que a média anual de taxação para automóveis é de $51,13.

Extrapolações são úteis, particularmente naquela forma de previsão denominada "previsão de tendências". Mas observando os números e os gráficos resultantes, é preciso lembrar constantemente que: A "tendência até aqui" pode ser um fato, mas a "tendência futura" não representa mais do que uma advinhação sofisticada, Está implícito nela ressalvas como: "as coisas continuando iguais" e "continuando as atuais tendências''. E de algum modo as coisas se recusam a permanecer iguais, de outra maneira a vida seria bastante insípida.

Como amostra de absurdo resultante de extrapolação descontrolada, considere a tendência da televisão; O número de aparelhos nos lares americanos aumentou cerca de 10.000% de 1947 a 1952. Projete isto para os próximos 5 anos e logo existirão 2 bilhões de aparelhos ou... Céus!... seriam quarenta por família! Se você quiser ser ainda mais tolo, comece com um ano base posterior a 1947 e poderá bem "provar" que cada familia terá, não quarenta, mas quarenta mil aparelhos.

Um pesquisador do governo, Morris Hansen, chamou a previsão do Instituto Gallup para a eleição de 1948 "o maior erro estatístico mais difundido na história humana". Era, todavia, um padrão de precisão comparado com algumas de nossas amplamente usadas estimativas de população futura, que já ganharam estrondosas gargalhadas por todo o pais. Nos idos de 1938, uma Comissão Presidencial composta de peritos duvidava que a população dos Estados Unidos jamais atingisse 140 milhões; em 12 anos já alcançava 12 milhões mais que isso. Há livros-texto, publicados tão recentemente que ainda estão em uso nos colégios, que prevêem uma população máxima de 150 milhões e declaram que isto ocorrerá por volta de 1980. Essas medonhas subestimativas resultaram da suposição de que a tendência permaneceria inalterável. Uma suposição semelhante, há um século, agiu igualmente mal na direção oposta, porque considerava a taxa de crescimento de 1790-1860. Em sua segunda mensagem ao Congresso, Abraham Lincoln predisse que a população dos Estados unidos atingiria 251.689.914 em 1930.

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Não muito depois, em 1874, Mark Twain sumariou o lado absurdo da extrapolação em "A Vida no Mississipi":

No espaço de 176 anos o Baixo Mississipi encolheu 242 milhas. Isso é a média de uma pitada acima de uma milha e um terço por ano. Assim, qualquer pessoa calma, que não seja cega ou idiota, poderá ver que, no velho Periodo Olítico Siluriano, que completará 1 milhão de anos no próximo novembro, o Baixo Mississipi possuía mais um milhão e trezentas mil milhas de comprimento e introduzia-se pelo Golfo do México como uma vara de pescar. E pelo mesmo raciocínio qualquer um pode ver que em 742 anos, a partir de agora, o Baixo Mississipi terá somente uma milha e três quartos de comprimento e as cidades de Cairo, no Illinois, e Nova Órleans, na Luisiana, terão juntado suas ruas e viverão confortavelmente sob o mesmo prefeito e uma única Câmara Mútua de Vereadores. Há algo de fascinante a respeito da ciência. A gente consegue um enorme retorno de suposições ao investir com um insignificante fato.