Morte na passarela

A polêmica em torno da obsessão pela magreza foi parar nas passarelas.

No mês passado, a Semana de Moda de Madri, a mais tradicional da Espanha, baniu o visual anoréxico. Meninas com Índice de Massa Corporal (IMC) menor que 18 foram barradas. A proibição mostrou dois lados: donos de agências de modelos irritados e médicos aplaudindo a decisão.

-- Essa proibição foi muito boa porque a influência da moda é determinante. Mas, não é a mais importante. Ela é um fator desencadeante desses transtornos -- diz o psicólogo Roberto Vasconcelos, coordenador do Ambulatório de Transtornos Alimentares da Fundação Universitária Mário Martins, de Porto Alegre.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera normal um IMC entre 20 e 25. Gisele Bündchen, por exemplo, tem um IMC de 16,85. Estilistas como Giorgio Armani também condenam o padrão anoréxico. Ele declarou: "Prefiro mulheres que mostrem minhas roupas da maneira mais adequada".

A Semana de Moda de Milão seguiu o exemplo e proibiu as muito magras. A medida entra em vigor no próximo evento, em fevereiro. A organização vai exigir que as modelos apresentem atestados médicos confirmando que estão saudáveis. O anúncio pode ser um alento para uma geração dividida. De um lado, a indústria dos fast foods. De outro, a da beleza (e da magreza). Ambas movimentam bilhões e criam um exército de doentes obesos ou anoréxicos.

Em agosto, a uruguaia Luisel Ramos, 22 anos, morreu no camarim da Semana de Moda de Montevidéu, minutos após desmaiar na passarela. Luisel não comia há quatro dias e teve um ataque cardíaco. Com 1m75cm, ela baixou de 57 para 45 quilos em alguns dias. Além de tomar poucos líquidos, ela ingeria laxantes.

-- A questão da magreza não se origina no mundo das modelos. Na nossa cultura, já se instaurou uma espécie de magronormatividade -- afirma a antropóloga Zulmira Newlands Borges.

A Internet é um prato cheio para anoréxicos e bulímicos. Um site americano vende pulseiras que identificam as "amigas". A roxa é para bulimia. A vermelha, para a anorexia. A autora diz que cria uma aliança entre os integrantes desses grupos. Na última atualização, o site tinha 2.685.333 acessos, e a menina já havia vendido cerca de 600 braceletes.