EUA: 21 milhões trabalham em casa

31 de agosto de 2006 - Gazeta News

 

Trabalhe sem sair de casa. Esta é a oferta tentadora trazida por milhares de apelos publicitários que invadem ruas e lares, por correio, e-mail ou televisão. A evolução e o barateamento dos serviços online, além do momento em que se encontra o mercado de trabalho e o comércio mundial, estão contribuindo para o maior interesse pelo trabalho à distância.

 

Nos Estados Unidos, a quantidade de trabalhadores que trocaram as roupas formais e os cartões de ponto para se tornarem teletrabalhadores -- profissionais que trabalham em casa, usando computador ou telefone, não necessariamente todos os dias da semana -- já chega a 21 milhões e representa 18% da força de trabalho.

 

No Brasil, apesar do número de pessoas que trabalham em casa chegar aos 4,5 milhões, com crescimento médio de 20% ao ano, segundo recente pesquisa da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades (Sobratt), gerentes e diretores ainda precisam se habituar a comandar fncionários que não estão presentes fisicamente.

 

Não é preciso ser autônomo para ser um teletrabalhador. O profissional precisa ter um mínimo de infra-estrutura, como um computador, fax e telefone, além de softwares de controle de tarefas e ferramentas de comunicação, como e-mail e messenger, por exemplo. Algumas empresas oferecem equipamentos e arcam com os custos de internet e telefonia do funcionário virtual.

 

100% virtuais: Companhias como Dell, Xerox e Shell já utilizam o trabalho à distância, e empresas menores já demonstram interesse, principalmente com a redução dos custos. Existem empresas que trabalham 100% virtualmente e outras que podem ter parte do pessoal operando nessa modalidade.

 

A principal vantagem nesse tipo de estratégia é a redução de custo.

 

Eliminam-se gastos com transporte, alimentação, aluguel ou compra de uma sala, mesas, cadeiras, computadores, armários, limpeza, taxas, luz, condomínio, telefone, enfim, todos os gastos necessários para manter um escritório. Com essa ecoomia considerável, muitas empresas optam por melhorar a remuneração de seus funcionários, visando a melhor produtividade.

 

Desta maneira, não somente os empresários vêem vantagens, como os profissionais também, já que gastam menos roupas, não vivem o estresse dos engarrafamentos e/ou até assaltos, além de contar com a flexibilidade dos horários e poder ficar mais tempo com a família.

 

No entanto, não é uma medida simples de ser tomada. O trabalho precisa ser bem distribuído e acompanhado. Exige um investimento com software para administrar todo o processo, além de treinamento diferenciado aos gerentes, pois sempre há a paranóia que do outro lado não se está trabalhando. Neste aspecto, é preciso que se tenha em mente que o que interessa são os resultados e a qualidade do trabalho.

 

A modalidade é vantajosa, mas antes de adotá-la é necessário levar em consideração o perfil das atividades da empresa para avaliar quando e como operar à distância.

 

Bom exemplo: Foi pensando em reduzir custos que a Pontonet (www.pontonet.com.br), empresa do Rio de Janeiro, especializada em consultoria e estratégia para Internet, resolveu fechar as portas do seu escritório em Copacabana, por volta de 2000 e começou a trabalhar virtualmente.

 

A Pontonet faz manutenção de websites para grandes clientes, além de produzir informativos eletrônicos, desenvolver projetos de comunidades virtuais, ministrar treinamentos para melhorar a fluência digital de usuários e prestar consultoria em tecnologia.

 

Cada membro da equipe trabalha em casa, gerenciado pelo software E-Trabalho, desenvolvido pela própria empresa, que permite que todos se relacionem pela internet. Atualmente, conta com uma equipe de cinco pessoas, sendo duas alocadas dentro de um dos clientes, três em casa, entre eles o coordenador.

 

"A empresa preferiu investir os recursos em software e jogar fora pela janela os custos fixos desnecessários", comenta Carlos Nepomuceno, diretor-executivo da Pontonet e jornalista que escreve artigos especializados na área. O bom exemplo rendeu à Pontonet uma doação de R$ 400 mil da Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) para finalizar módulos do software ICOX, gerenciador de projetos de inteligência coletiva em comunidades virtuais e disponibilizar a versão gratuita do software.

 

A solução foi desenvolvida na linguagem PHP e utilizará o banco de dados MySQL Server. O produto roda em plataforma Linux, mas já está sendo criada uma versão Microsoft. O ICOX vai contar com ferramentas como blogs, fotologs, enciclopédia, enquetes, agenda e fóruns de discussão.

 

O ICOX deve estar disponível para download grátis na internet até setembro. O projeto conta com o apoio de empresas como Infoglobo, Vale do Rio Doce e Armazém Digital, além da organização Viva Rio.

 

Perfil dos solitários: Não são todas as pessoas que têm perfil para trabalhar à distância. É preciso ter iniciativa, disciplina e forte senso de responsabilidade. Algumas profissões são mais adaptáveis, como por exemplo, quem trabalha com metas e prazos, e principalmente das áreas de informática, administração, jornalismo, publicidade, marketing, vendas, direito, engenharia e arquitetura.

 

O problema maior apontado por muitas pessoas que optaram por se tornarem teletrabalhadores é a solidão profissional. Em alguns casos é necessário um mínimo de interação pessoal para não causar um isolamento social, que pode ser resolvido com reuniões semanais na sede da empresa, por exemplo.

 

Para que o trabalho flua, as empresas usam e-mail para solicitar tarefas para seus funcionários. No caso de projetos com preço fechado, com o desenvolvimento de um software ou de um website, é preciso contratar a equipe por tarefa. Assim é importante vincular a remuneração ao trabalho realizado e estabelecer os pontos de controle e monitorar para saber se estão sendo cumpridos. Todos têm interesse de acabar rápido para receber.

 

No caso de manutenção, pode-se estabelecer um fixo e acompanhar os pedidos dos clientes e as tarefas executadas para garantir queele esteja sempre satisfeito. O web designer Fábio Scheneider, 30 anos, é teletrabalhador de uma multinacional norte-americana, tendo que comparecer na empresa apenas em reuniões agendadas previamente e que geralmente são mensais.

 

"Eu trabalho em casa desde 2001 e gosto muito. No início foi um pouco complicado adaptar a rotina e se acostumar à idéia de trabalhar em casa. Sentia-me sozinho, fosse para dividir uma idéia ou problema com alguém. Para não me sentir isolado encontro os companheiros de trabalho pelo menos duas vezes na semana, num happy hour. Para não me atrapalhar com os horários e prazos, crio um cronograma com etapas, dias, turnos e horários dos projetos".

 

Scheneider conta que "a maior vantagem é poder trabalhar de madrugada, porque sempre tive mais disposição para trabalhar à noite do que pela manhã. Além disso, atividades que dependem de inspiração não podem simplesmente ser cortadas para continuar no dia seguinte", explica.